Palavra por palavra

PALAVRA POR PALAVRA

Alguém, em algum momento de minha vida, disse-me que a alma do poeta deve ser leve como uma pluma ou asas de borboleta. Eu não quis responder, entrar em celeuma, despertar discussão que não pretendia alimentar. Mas, um pouco da verdade é que o espirito do trovador é dura. Pesada e sofrida, é por isso que ele segue sua existência a se sacudir, espalhado palavras e poemas como o cão que tenta se livrar das pulgas que o incomodam. O sonhador tenta aliviar o peso de sua alma dessa forma. Não é fácil carregar as dores do mundo em uma vida tão curta. Imagine passar pela juventude sendo um tolo e, quando começar a entender das coisas deste mundo, se deparar com a razão que o lembra que tudo está chegando ao fim. Não sei por que o poeta é torturado por assombrações dessa estirpe. Certamente, aqueles que descem a serra têm maior experiência do que os que tiveram a viagem interrompida no caminho.

Vou me concentrar em contar o que aconteceu naquela data. Nós nos encontrávamos sempre, eu procurava estar presente fossem nos bons ou nos maus momentos. Eu estava lá no seu casamento e no fim dele. Apoiei, aconselhei, nos vinte anos que se passaram desde nossa juventude. Sempre me mantive bem perto. Eu parecia um reloginho marcando as horas, acompanhando o tecer do tempo.

Naquela noite, um baile da velha turma de faculdade iria nos pôr novamente lado a lado. Fui vestido de forma casual, mas esmerado e bem cuidado! Aguardando que ela chegasse eu rodava de mesa em mesa, de grupo em grupo, até que olhei para a porta e a vi.

Ela vestia um vestido longo, branco de ombros nus. Sem alças, seu decote realçava seu macio colo, levantando discreta e deliciosamente os seus seios. Estava bem mais alta com aquelas sandálias de salto fino. Senti o peso do desejo acumulado por uma vida inteira abalar a segurança que eu queria demonstrar.

Havia uma multidão de ex-colegas ao seu redor, eu não seria mais um, resolvi aguardar a oportunidade certa para me aproximar. Acompanhei seus passos e os ponteiros do relógio acreditando que a noite se arrastava. É assim que se tortura uma alma ferida. Usando o tempo, marcando cada minuto. Resolvi não beber nada que tivesse álcool, não iria embaçar meu hálito, e as minhas ideias, até conseguir falar com ela.

“É agora ou nunca”, eu pensei quando a vi retornado a sós da toalete, mas seu ex-marido conseguiu aproximar-se antes, apesar da pouca distância que nos separava. Vi que a abordagem dele a deixara desconfortável e este foi o meu grande trunfo. Venci com determinação os dez passos restantes, estendi a mão e ela os braços. Amou-me com um único abraço. Respirei devagar, em descompasso ao ritmo acelerado de meu coração, senti todo aroma que cobria sua pele e finalmente balbuciei como era bom vê-la. De forma natural, ela respondeu que não parecia, pois, eu ainda não tinha ido cumprimentá-la.

Consumimos a hora seguinte junto ao pessoal que nos eram mais próximos nos vinte anos que deixamos para trás. Havia muita gente que eu não me lembrava quem fosse, apesar de se dirigirem a mim falando o meu nome. A memória nos prega muitas peças deste tipo. Em eventos como este eu não era o único ou último a ter esse lapso, mas convenhamos que é algo chato de se passar. O meu conforto era ela estar ali tão coladinha e, se não fosse a banda tocando alto, eu poderia ouvir seus pensamentos.

— Bee Gees — Eu adoro essa música! “Ela me confidenciou”.

— Eu também, vamos dançar?

— Estou meio enferrujada!

— Não se preocupe, se eu ouvir seus joelhos rangerem, eu te trago de volta. “Disse sorrindo”.

Uma bela sequência dos Bee Gees não nos deixou parar de dançar, depois, ao som de “Angel” dos Rolling Stones, senti que os olhos de toda festa nos seguiam. Éramos dois corpos e uma alma em um tempo só nosso, tão atemporal quanto o amor pode ser. Depois a banda ouviu o pedido silencioso do meu coração e começou a tocar “Crazy World”, do conjunto Abba. Não me contive e comecei a compor em seu ouvido um poema que contava a nossa história. Posteriormente transformei-o em música para eternizar aquele momento.

Palavra por Palavra

Esta noite eu poderia dançar com você

Pensando que a vida nunca iria acabar

Você se lembra?

Éramos crianças e nos afastamos

Eu continuei seguindo seus passos,

como um bom amigo.

A vida era difícil para nós dois,

Dançamos melodias ruins.

Eu quero te levar para ver estrelas,

O céu será só você e eu

Eu quero te levar para ver estrelas,

O céu será só você e eu

Eu quero te levar para ver estrelas,

O céu será só você e eu

Eu não vou falar sobre o tempo passado,

Eu sei que você está confusa,

Porque muitos disseram eu te amo,

Mas só eu me mantive por perto.

Eu sinto que, dentro deste vestido,

Você pode estar surpresa com o que estou dizendo,

E acha que eu também sou uma mentira,

Mas só eu me mantive por perto.

Eu quero te levar para ver estrelas,

O céu será só você e eu

Eu quero te levar para ver estrelas,

O céu será só você e

Eu quero te levar para ver estrelas,

O céu será só você e eu

Agora, já próximos aos nossos oitenta e cinco anos, estou contando nosso recomeço para nossos netos e preciso fazer isso palavra por palavra…

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